Educação
Escolar de Pessoas com Surdez- Atendimento Educacional Especializado em
Construção
Mirlene Ferreira
Macedo Damázio
Josimário de Paulo Ferreira
Uma nova política de Educação Especial na
perspectiva inclusiva, principalmente para pessoas com surdez, tem se tornado
promissora no ambiente escolar e nas práticas sociais/institucionais. Porém,
por mais que as políticas já estejam definidas, muitas questões e desafios
ainda estão para ser discutidos, muitas propostas, principalmente no espaço
escolar, precisam ser revistas e algumas tomadas de posição e bases
epistemológicas precisam ficar mais claras, para que, realmente, as práticas de
ensino e aprendizagem na escola comum pública e também privada apresentem caminhos
consistentes e produtivos para a educação de pessoas com surdez.
Não
vemos a pessoa com surdez como o deficiente, pois ela não o é, mas tem perda
sensorial auditiva, ou seja, possui surdez, o que a limita biologicamente para
essa função perceptiva. Mas, por outro lado, há toda uma potencialidade do
corpo biológico humano e da mente humana que canalizam e integram os outros
processos perceptuais, tornando essa pessoa capaz, como ser de consciência,
pensamento e linguagem.
O
problema da educação das pessoas com surdez não pode continuar sendo centrado
nessa ou naquela língua, como ficou até agora, mas deve levar-nos a compreender
que o foco do fracasso escolar não está só nessa questão, mas também na
qualidade e na eficiência das práticas pedagógicas. É preciso construir um
campo de comunicação e interação amplo, possibilitando que as línguas tenham o
seu lugar de destaque, mas que não sejam o centro de tudo o que acontece nesse
processo.
A
intenção é interpretar a pessoa com surdez, à luz do pensamento pós-moderno,
como ser humano descentrado, por acreditar no corpo biológico, não em sua parte
com a deficiência, mas nas outras, que dão à pessoa potencialidade. Isso nos
faz pensar num sujeito com surdez não reduzido ao chamado mundo surdo, com a
identidade e a cultura surda, mas numa pessoa com potencial a ser estimulado e
desenvolvido nos aspectos cognitivos, culturais, sociais e lingüísticos.
Rompemos
com o paradigma da dicotomização entre oralistas e gestualistas, e colocamos em
cena a pessoa com surdez na concepção pós-moderna, vemos que a tendência
bilíngüe se torna um território que se desterritorializa a clausura dessa
pessoa, sob a ótica multicultural.
Como
propõe o AEE, a pessoa com surdez não é estrangeira em seu próprio país, mas
usuária de um sistema lingüístico com características e status próprios, no
qual cognitivamente se organiza e estrutura o pensamento e a linguagem nos
processos de mediação simbólica, na relação da linguagem/pensamento/realidade e
práxis social. Por isso, é necessário discutir que, mais do que uma língua, as
pessoas com surdez precisam de ambientes educacionais estimuladores, que
desafiem o pensamento e exercitem a capacidade perceptivo-cognitiva.
Em
um contexto de rupturas com essa visão segregacionista e de embates entre gestualista
e oralistas, assinalamos que esse não é o caminho definido pelas políticas
públicas educacionais brasileira, quando legitima a perspectiva inclusiva numa
abordagem bilingüe para a educação das pessaos com surdez. A atenção deve estar
centrada, primeiramente, no potencial natural que esses seres humanos têm,
independente de deficiência, diferença, limites ou mesmo do marcador surdo; em segundo lugar, o foco deve ser a transformação da
escola e das suas práticas pedagógicas excludentes em inclusivas.
Nesse
contexto de compreensão é que legitimamos a construção do Atendimento
Educacional Especializado para pessoas com surdez (AEE PS) por meio da Política
Nacional de Educação Especial na Perspectiva Inclusiva, que disponibiliza
serviços e recursos. Esse atendimento tem como função organizar o trabalho
complementar para a classe comum, com vistas à autonomia e à independência
social, afetiva, cognitiva e lingüística da pessoa com surdez na escola e fora
dela.
O
AEE PS, na perspectiva inclusiva, estabelece como ponto de partida a
compreensão e o reconhecimento do potencial e das capacidades desse ser humano,
vislumbrando o seu pleno desenvolvimento e aprendizagem.
Portanto,
o AEE PS deve ser visto como construção e reconstrução de experiências e
vivências conceituais, em que a organização do conteúdo curricular não deve
estar pautada numa visão linear, hierarquizada e fragmentada do conhecimento. O
conhecimento precisa ser compreendido como uma teia de relações, na qual as
informações se processem como instrumento de interlocução e de diálogo.
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